História

Artigo: Marighella, tão negro quanto herói da democracia.

A única coisa negra na vida de Marighella é a sua própria história e a única verdade foi a sua fé revolucionária, diz Jason Medeiros

Por: Jason Medeiros

No ano passado (2019) o ator e diretor de cinema Wagner Moura (ex-capitão Nascimento) lançou o filme Marighella, adaptado da biografia escrita por Mário Magalhães (que o retrata como mártir da luta pela democracia). O filme também trouxe Seu Jorge para representar o papel do guerrilheiro, e tentou-se que a película fosse lançada no dia nacional da Consciência Negra (20/11), mas nas imagens e texto abaixo vocês poderão ver quão negro e democrata era Marighella.

Marighella, Artigo: Marighella, tão negro quanto herói da democracia.
Cartaz do filme Marighella (2019) estrelando Seu Jorge no el do terrorista

Tratado como herói pela esquerda brasileira, do cantor Caetano Veloso, que comentou em entrevista recente continuar simpatizando com a figura do guerrilheiro, ao candidato a prefeitura de São Paulo em 2020, Guilherme Boulos, que, na ocasião, comemorou entusiasmado o lançamento do filme, afirmando que este seria realizado em uma das ocupações das quais promove, de Frei Betto que expressamente disse: “será um nome honrado no Brasil assim como Lamarca”, ao criminoso José Dirceu que também afirmou que a história o reserva o papel de herói, quem de fato foi Marighella?

Carlos Marighella (1911-1969), filho de Maria Rita do Nascimento, uma negra bahiana, com Augusto Marighella, um alvo imigrante italiano, um comunoterrorista de linha stalinista, um dos personagens mais emblemáticas da luta armada (leia-se: grupos terroristas que desejavam impor uma ditadura muito mais sangrenta que a que alegavam combater), considerado em determinado momento inimigo número 1 do regime, foi um dos mais destemidos e impiedosos terroristas do período.

Marighella, Artigo: Marighella, tão negro quanto herói da democracia.
Carteira de filiação de Marighella ao Partido Comunista do Brasil (PCB)

Marighella ingressou no Partido Comunista do Brasil em 1934, passou os anos de 1953 e 1954 na China Comunista, recebendo treinamento de guerrilha urbana e métodos revolucionários. Em 1966 rompeu com o Partidão (PCB), sendo expulso no ano seguinte (1967), ano em que foi Cuba estabelecer uma aliança com a ditadura de Fidel Castro; em 1968 funda a Ação Libertadora Nacional, o grupo terrorista mais brutal daquele período, conhecido pelos inúmeros ataques terroristas, sequestros (como o do embaixador norte-americano Charles Elbrick, realizado em parceria com o Movimento Revolucionário 8 de outubro – MR-8), assaltos a bancos, expropriações de terras, e assassinatos sumários inclusive dos que desejavam abandonar o projeto de ditadura do proletariado como, por exemplo, Márcio Leite de Toledo.

Foi também o autor do panfleto terrorista Manual do Guerrilheiro Urbano, publicado em junho de 1969, que serviu de instrução aos movimentos terroristas para utilização de táticas de guerrilha. Tendo sido traduzido para várias línguas e orientado vários grupos de esquerda ao redor do mundo, sendo estudado inclusive pela CIA (Agência Central de Inteligência).

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Minimanual do Guerrilheiro Urbano (1969)

Segue alguns trechos do folheto:

– “somente poderá sobreviver se está disposto a matar os policiais”;

– “a grande desvantagem do policial montado é que se apresenta ao guerrilheiro urbano como dois alvos excelentes: o cavalo e o cavaleiro”;

– “as greves e as breves interrupções de trânsito podem oferecer uma excelente oportunidade para a preparação de emboscadas ou armadilhas cujo fim é o de destruição física da cruel e sanguinária polícia”;

– “a execução pode ser realizada por um franco-atirador, paciente, sozinho e desconhecido, e operando absolutamente secreto e a sangue-frio”;

– “o terrorismo é uma ação usualmente envolvendo a colocação de uma bomba ou uma bomba de fogo de grande poder destrutivo, o qual é capaz de influir perdas irreparáveis ao inimigo”;

– “Atacando de coração essa falsa eleição e a chamada ‘solução política” tão apeladora aos oportunistas, o guerrilheiro urbano tem que se fazer mais agressivo e violento, girando em torno da sabotagem, do terrorismo, das expropriações, dos assaltos, dos sequestros, das execuções”;

– “sequestrar é capturar e assegurar em um lugar secreto um agente policial, um espião norte-americano, uma personalidade política ou um notório e perigoso inimigo do movimento revolucionário”;

 

Marighella, Artigo: Marighella, tão negro quanto herói da democracia.
Capa da Veja – Marighella foi considerado inimigo Nº 1 da ditadura militar

Na noite de 4 de novembro 1969, Marighella foi assassinado a tiros por agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) em uma emboscada na alameda Casa Branca em São Paulo capital.

Marighella, Artigo: Marighella, tão negro quanto herói da democracia.
Carlos Marighella assassinado dentro de um fusca

No ano de 1996, o a Comissão de Direitos Humanos do MJ (Ministério da Justiça) reconheceu a responsabilidade na morte do guerrilheiro. Nessa ocasião, sua viúva, a militante comunista Clara Charf, recebeu 150 mil reais de indenização dos cofres públicos. Em 2008 foi decidido que ele deveria receber pensão vitalícia do governo brasileiro. Em 2012, a Comissão da Verdade, sobre o Ministério da Justiça liderado pelo então ministro José Eduardo Cardozo (governo PT) oficializou a anistia do terrorista, e, em 2013, a mesma comissão realizou ato em homenagem ao aniversário de 44 anos da sua morte.

Pois é, como vimos Marighella não era negro, mas um mulato; não era democrata, mas sim terrorista; não foi herói, muito pelo contrário, foi um vilão. A única coisa negra na vida de Marighella é a sua própria história e a única verdade foi a sua fé revolucionária.

“Seu objetivo era criar o maior caos possível por meio de ações ousadas como assaltos a bancos, sabotagens, assassinatos etc., de modo a mergulhar o país em uma guerra civil sem precedentes. Para tanto, os atos terroristas nas cidades preparariam o caminho para a guerrilha rural, sua grande ambição, com a formação de cinco colunas guerrilheiras em vários estados do Brasil. Mariguella desejava ardentemente que isso levasse a uma intervenção dos EUA, o que transformaria o Brasil em um novo Vietnã (era esse o sentido da mensagem de Che Guevara na OLAS: “criar um, dois, muitos Vietnãs”)” – Historiador e Diplomata Gustavo Marques

Por: Jason Medeiros

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 26 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Oficial da Reserva pelo CPOR/R; Entusiasta da filosofia política e editor do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

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