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Artigo: Comunismo e homossexualidade

É estranhamente comum, e perfeitamente contraditório, ver integrantes de movimentos LGBT se identificando não com o espectro político mais à esquerda, mas sim com a ideologia socialista ou comunista, como queira chamar.

Por: Jason Medeiros

São públicos e notórios os fatos de que o regime nazista (antimarxista e antiliberal) perseguiu homossexuais, inclusive executando membros aliados como o líder da Tropa de Assalto, Ernst Röhm, e o deputado Edmund Heines, na noite das Facas Longas em 1934, por serem homossexuais, bem como é válido ressaltar que em diversos países de tradição liberal e democrática havia legislações hostis a essa prática, como podemos lembrar-nos do famoso caso envolvendo o cientista britânico Alan Turing que fora castrado quimicamente após o desfecho do seu processo criminal neste sentido em 1952.

Figuras 1 e 2: Oficial nazista da Sturmabteilung (SA)Ernst Röhm à esquerda. E, à direita, o cientista britânico Alan Turing aos 16 anos.

Todavia, é igualmente inquestionável, pois fora registrado em diversos documentos e nos anais da história moderna, as barbaridades cometidas pelos regimes socialistas contra esses indivíduos, única e exclusivamente pela sua natureza, vejamos:

Anteriormente à Revolução de Outubro em 1917, o regime czarista possuía uma legislação que criminalizava esse tipo de conduta sexual,homossexuais, mas após a guerra civil com a vitória do Exército Vermelho e consequente fundação da União Soviética em 1922, houve a promulgação de um novo código penal que não mais possuía as mesmas cláusulas persecutórias. Entretanto, é sabido que isso não se deveu a uma militância da causa LGBT, mas apenas um rompimento com a estrutura jurídico-social anterior, tanto que os costumes permaneceram os mesmos e essas pessoas continuaram a serem perseguidas e perderem seus empregos por esta mesma razão. Além disto, com a morte de Lênin e ascensão de Stálin, houve a recriminalização do homossexualismo masculino em1934 com a adição do artigo 121 no diploma penal, que previa pena de reclusão de até cinco anos, com a possibilidade de agravante de até oito anos, podendo ser convertida em trabalhos forçados no gulag (estima-se que 50 mil homens foram presos por este motivo até a década de 80). Além disso, a propaganda soviética da época retratava a homossexualidade como um sinal de fascismo.

 

Figura 3: “Moda Inverno, 1941” – Propaganda Soviética ilustrando soldados nazistas efeminados. Ver “NATION AND GENDER IN THE VISUAL REPRESENTATIONS OF WAR PROPAGANDA” por Oleg Riabov.

Já na China o processo se deu de maneira diversa. Na cultura tradicional chinesa havia aparente neutralidade quanto à prática homossexuais. Entretanto, com a Revolução Xinhai que derrubou a Dinastia Qing em 1912, a intolerância para com gays e lésbicas tornou-se mais comum, como consequência da influência do que havia de mais moderno na ciência médica mundial da época, que tratara essa prática como anormal e patológica.

Com a proclamação, em 1949, da República Popular da China, pelo Partido Comunista liderado por Mao Tsé-Tung, a repressão à homossexualidade se intensificara. Considerados “vergonhosos” e “indesejáveis”, foram fortemente perseguidos e a prática homossexual criminalizada, pois fora considerada um transtorno de ordem mental do indivíduo.

 

Figura 4 Mulher espiando homens amantes, Dinastia Qing, Museu da Cultural Sexual Chinesa, Shanghai. Autor desconhecido – CROMPTON, Louis, Homosexuality & Civilisation, Cambridge/MA; London, 2003, p. 232.

Na Albânia, sob o regime ditatorial do comunista EnverHoxha a prática sexual entre pessoas do mesmo sexo era penalizada com prisão de até dez anos. O artigo 137 do Código Penal da época, na seção de Crimes Contra a Moral Social previa a referida punição correspondente à supramencionada conduta.

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Em Cuba a história não foi diferente. Antes da Revolução Cubana de 1959 apesar da superficial tolerância com homossexuais, já existiam leis rígidas que criminalizavam a homossexualidade, que era associada ao crime, prostituição e assédio sexual. Mas na Cuba pós-revolução tudo isso fora intensificado. “Pessoas LGBT” emigraram subitamente para Miami, principalmente os que trabalhavam em empresas estadunidenses ou prestavam serviços domésticos para a burguesia nativa. Toda a perseguição legal já existente antes da revolução fora ainda mais sistematizada e institucionalizada. Assim como na URSS, o lesbianismo era invisível à legislação que era focada no homossexualismo praticado por homens. Esse estado de coisas limitavam as carreiras que essas pessoas podiam trabalhar na ilha, além de detenções em campos de trabalhos forçados. Penteados extravagantes (cabelo grande) e roupas inadequadas (coloridas, justas) eram considerados maneirismos efeminados e vistos como marcadores visíveis da homossexualidade masculina. O próprio Fidel Castro se gabava de que “no país, não há homossexuais”, os quais ele se referia como “maricones” e “agentes do imperialismo”, em razão de muitos indivíduos dessa comunidade terem se envolvido em atividades contrarrevolucionárias por serem constantemente perseguidos pelo regime.

 

Figura 5 Policiais em traje civis prendem ativista que participava de marcha em favor dos direitos LGBT. Havana (11/05/2019) – Foto: Ramom Espinosa

Outras nações que adotaram esse regime no século passado não atuaram de maneira distinta quando o assunto é homossexualidade, e, portanto torna-se desnecessário expô-las para concluirmos que esse tipo de prática sexual era repremida na esmagadora maioria dos países de orientação socialista durante todo o século XX, já que a consideravamuma depravação da moralidade burguesa, e, amparados no positivismo científico sentiam-se confortáveis para rechaçar essas práticas até mesmo com a morte, estimulados pela crença na formação de um “novo homem”.

Por fim, deixaremos algumas citações de expoentes do comunismo sobre o assunto:

“A relação do homem com a mulher é a mais natural de ser humano com ser humano”.

Karl Marx em Manuscritos Econômico-Filosóficos

 

“Jamais chegaríamos a acreditar que um homossexual pudesse incorporar as condições e requisitos de conduta que nos permitiriam considerá-lo um verdadeiro revolucionário, um verdadeiro militante comunista. Um desvio dessa natureza se choca com o conceito que temos do que deve ser um comunista militante.”

Fidel Castro

 

 

“Na Alemanha já existe um lema que diz: Erradicando os homossexuais, desaparece o fascismo”.

Máximo Gorki em Humanismo Proletário

 

 

“Com o tempo, essa família ateniense chegou a ser o tipo pelo qual modelaram suas relações domésticas não apenas o resto dos jônios como, ainda, todos os gregos da metrópole e das colônias. Entretanto, apesar do sequestro e da vigilância, as gregas achavam muitas e frequentes ocasiões para enganar os seus maridos. Estes, que se teriam ruborizado de demonstrar o menor amor às suas mulheres, divertiam-se com toda espécie de jogos amorosos com hetairas (cortesãs); mas o envilecimento (degradação) das mulheres refletiu sob os próprios homens e também os envileceu, levando-os às repugnantes práticas da pederastia e a desonrarem seus deuses e a si próprios, pelo mito de Ganimedes.

Friedrich Engels em A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado

 

 

“No que diz respeito ao seu plano para o panfleto, minha opinião era que” a demanda pelo amor livre “era pouco clara e-independentemente da sua vontade e seu desejo (Enfatizo isso quando eu disse que o que importava era o objetivo, as relações de classe e não seus desejos subjetivos) -seria, em condições sociais presentes, vir a ser um burguês, e não uma exigência proletária “

Lênin em resposta a Inessa Armand (companheira revolucionária e marxista francesa)

 

 

“Parece-me que esta superabundância de teorias sobre sexo brota do desejo de justificar a própria vida sexual, anormal ou excessiva do indivíduo ante a moralidade burguesa e reivindicar tolerância para consigo. Não importa quão rebeldes e revolucionárias aparentam ser; essas teorias, em última análise, são completamente burguesas. Não há lugar para elas no partido, na consciência de classe e na luta proletária”.

Clara Zetkin (feminista e marxista), em sua obra Reminisceinsces of Lenin, menciona as palavras do Bolchevique.

 

Referências:

URSS

https://web.archive.org/web/20190329183745/https://www.workers.org/ww/2004/lgbtseries1007.php

https://encyclopedia2.thefreedictionary.com/Great+Soviet+Encyclopedia

BERMAN, Harold Joseph, Soviet criminal law and procedure: the RSFSR codes (1966)

HEALEY, Dan, Masculine purity and Gentlemen´s Mischief: Sexual Exchange and Prostituition between Russian Men, 1861-1941 (2001)

 

China

https://theculturetrip.com/asia/china/articles/a-history-of-homosexuality-in-china/

JEFREYS, Elaine; YU, Haiqing, Sex in China (2015)

 

Albânia

https://theculturetrip.com/asia/china/articles/a-history-of-homosexuality-in-china/

CAREY, Henry F, European Institutions, Democratization and Human Rights Protection in the European Periphery(2014)

 

Cuba

http://www.hartford-hwp.com/archives/43b/172.html

https://web.archive.org/web/20130124161916/http://www.cuba-solidarity.org.uk/faqdocs/Cuba-sexual-diversity.pdf

https://thecuttingedgenews.com/index.php?article=76818

http://www.pinktriangle.org.uk/glh/213/cuba.html

https://web.archive.org/web/20150721164734/http://www.ilzeearner.com/spring2012/ir702/s9/Obvious%20Gaze%20and%20the%20State%20Gaze%20-%20Mariel%20Boatlift%202007.pdf

ARGUELLES, Lourdes; RICH, B. Ruby, Homosexuality, Homophobia, and Revolution: Notes toward an Understanding of the Cuban Lesbian and Gay Male Experience (1984)

LLOVIO-MENÉNDEZ, José Luiz, Insider: My Hidden Life as a Revolutionary in Cuba (1988)

LOCKWOOD, Lee, Castro´s Cuba, Cuba´s Fidel (1967)

 

Geral:

https://encyclopedia.ushmm.org/content/pt-br/article/persecution-of-homosexuals-in-the-third-reich

https://www.marxists.org/portugues/marx/1884/origem/cap02.htm

https://www.marxists.org/archive/lenin/works/1915/jan/24.htm

https://www.marxists.org/portugues/marx/1844/manuscritos/cap04.htm

https://www.marxists.org/archive/zetkin/1924/reminiscences-of-lenin.htm#h07

http://az.lib.ru/g/gorxkij_m/text_1934_proletarsky_gumanizm.shtml

https://pcdob.org.br/noticias/os-marxistas-e-a-homossexualidade/

http://rsbm.royalsocietypublishing.org/cgi/doi/10.1098/rsbm.1955.0019

CAREY, Mark, Hitler´s Gay Traitor: The Story of Ernst Röhm, Chief of Staff of the S.A. (2006)

ENGELS, Friedrich, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1844)

LENIN, V.I, To Inessa Armand (1915)

MARX, Karl, Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844)

ZETKIN, Clara, Reminiscences of Lenin (1924)

GORKI, Máximo, Humanismo Proletário (1934)

REICH, Wilhelm, A Revolução Sexual (1936)

 

Por: Jason Medeiros,

Jason de Almeida Barroso Medeiros, 26 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Apirante-à-Oficial da Reserva pelo CPOR/R, entusiasta da filosofia política e fundador do perfil @ocontribuinteoriginalno Instagram.

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