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Artigo: O paradoxo dos “tolerantes” intolerantes

É comum ver militantes de esquerda e, especialmente, de movimentos extremistas violentos, tais como: Antifas e Black Lives Matter, fazendo mal uso desse subterfúgio intelectual.

Artigo: O paradoxo dos “tolerantes” intolerantes

Artigo: O paradoxo dos “tolerantes” intolerantes/ Foto: Divulgação

Publicado em 30 de junho de 2020 - 16:31

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Por: Jason Medeiros

É comum ver militantes de esquerda e, especialmente, de movimentos extremistas violentos, tais como: Antifas e Black Lives Matter, fazendo mal uso desse subterfúgio intelectual, qual seja: o paradoxo da tolerância de Karl Popper (1902-1994), com vistas a dar estofo de legitimação moral às suas ações imorais, quando não criminosas.

Provarei, neste texto, como esses e outros grupos instrumentalizam esse “conceito” popperiano, sem entendê-lo, com fins de praticar o exato oposto daquilo que é defendido pelo filósofo, ou seja, justificar toda forma de agressão física e verbal, de intolerância e ódio, para com aqueles que discordam das suas ideais.

Antes de progredirmos, faz-se necessária a ambientação do leitor ao texto do pensador, a partir da transcrição do referido paradoxo, que pode ser encontrado no 4º parágrafo, da 4ª nota, do 7º capítulo, do 1º volume, da sua obra A Sociedade Aberta e Seus Inimigos (1945). Senão Vejamos:

“Menos conhecido é o paradoxo da tolerância. Uma tolerância ilimitada conduz necessariamente ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos uma tolerância ilimitada mesmo aos que são intolerantes, se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante do assalto dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos e, com eles, a tolerância. – Não sugiro com esta formulação que, por exemplo, devamos reprimir sempre a expressão de filosofias intolerantes; enquanto pudermos contrariá-las com argumentos racionais e controlá-las por meio da opinião pública, a repressão seria certamente muito pouco indicada. Mas deveríamos reserva-nos o direito de as reprimir, se necessário pela força, pois pode facilmente suceder que não estejam dispostas a confrontar-nos no terreno da discussão racional, mas comecem por rejeitar qualquer espécie de discussão; podem proibir os seus seguidores de ouvirem qualquer argumentação racional, porque a consideram enganadora, e ensiná-los a responder aos argumentos com os punhos ou as pistolas. Devíamos, por conseguinte, em nome da tolerância, afirmar o direito a não tolerar os intolerantes. Devíamos sustentar que qualquer movimento que pregue a intolerância se coloca fora da lei e devíamos considerar criminosa a incitação à intolerância e à perseguição, da mesma maneira que devíamos considerar criminosa a incitação ao homicídio ou ao rapto ou à reinstituição do tráfico de escravos.”

Ainda antes de iniciarmos com a interpretação do texto é necessário contextualizá-lo, e frisar que apesar de Popper ter sido um militante comunista por um breve período da sua juventude e se convertido posteriormente em um defensor feroz da democracia liberal, este, que é considerado um dos maiores, senão o maior nome, da filosofia da ciência, após ter se debruçado incessantemente sobre as teorias marxista e hegeliana, que lhe é subjacente, conferiu-lhes a classificação de pseudociência, tendo a supramencionada obra de teoria política, sido reconhecida como uma das mais assertivas críticas ao marxismo no século XX.

Feita a breve, mas devida apresentação das palavras, do contexto, e do autor, podemos então pensar a respeito delas.

Em uma primeira, mas apressada leitura do texto, é normal que se tenha a impressão de que há ali uma defesa de modelo de sociedade tolerante, com exceção de tolerar a intolerância, pois a tolerância absoluta, leva ao fim do próprio padrão de sociedade tolerante.

Seguindo, exclusivamente, essa lógica, sem se atentar para detalhes importantes da mensagem, leva o interlocutor a crer que meras opiniões (e não ameaças violentas), devam ser sumariamente suprimidas, até mesmo pelo uso da força.

Esse constructo racional é uma deturpação das palavras do filósofo, pois, desconsidera um ponto crucial da mesma mensagem: “Não sugiro com esta formulação que, por exemplo, devamos reprimir sempre a expressão de filosofias intolerantes; enquanto pudermos contrariá-las com argumentos racionais e controlá-las por meio da opinião pública, a repressão seria certamente muito pouco indicada. Mas deveríamos reserva-nos o direito de as reprimir, se necessário pela força, pois pode facilmente suceder que não estejam dispostas a confrontar-nos no terreno da discussão racional, mas comecem por rejeitar qualquer espécie de discussão; podem proibir os seus seguidores de ouvirem qualquer argumentação racional, porque a consideram enganadora, e ensiná-los a responder aos argumentos com os punhos ou as pistolas.”. Ou seja, Popper defende o uso do debate de ideias como forma de combate racional à intolerância, e que, somente se os intolerantes passarem a agir com violência física, ou se mostrarem uma ameaça real e iminente, é que se deve utilizar da força para coibi-los.

Todavia, explicar o real significado das palavras do autor para aqueles que poderiam ter entendido por eles mesmos, não é a questão mais importante. O que verdadeiramente deve nos chamar à atenção é: Quem ou o que define o que ou quem é intolerante?

Ora, isso é algo meramente subjetivo! O universo é indiferente quanto a qualquer um de nós, e, todos, como seres individuais que somos, possuímos visões de mundo distintas umas das outras, fazendo com que o entendimento sobre o que é a intolerância varie de pessoa para pessoa, de grupo para grupo, principalmente para os que têm cosmovisões antagônicas. E é exatamente por esta razão, que as leis positivadas em uma república existem para igualar os homens à luz do Estado e não da natureza, baseadas na razoabilidade imperativa dos direitos naturais (vida, liberdade, igualdade, etc), do consenso da maioria, e do respeito às minorias.

Portanto, esses grupos, com uma ótica maniqueísta da realidade, arrogam para si a defesa do bem contra o mal, e atropelam o mínimo procedimento punitivo, pois se consideram as vítimas, os investigadores, e os julgadores, daqueles com quem não concordam, agindo como verdadeiros agentes da censura, em nome do paradoxo do filósofo que os condenaria de pronto, já que não só foi um defensor da democracia e da liberdade contra o socialismo e a repressão estatal, como somente considerou o uso da força, quando esta for impreterivelmente necessária para a manutenção da ordem social.

Resta provado, que esses grupos sentem a necessidade de possuir um arcabouço teórico que os legitime a praticar a violência e o discurso de ódio, para censurar todos os que discordam de suas proposições. Nada poderia ser mais oposto do que o defendido por Popper.

Por: Jason Medeiros,
Jason de Almeida Barroso Medeiros, 26 anos, bacharelando em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco; Aspirante-à-Oficial da Reserva pelo CPOR/R, entusiasta da filosofia política e fundador do perfil @ocontribuinteoriginal no Instagram.

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