Pernambuco

Covid-19 avança na periferia da RMR , revela pesquisa da Fundaj

Mapeamento mostra crescimento nos locais entre 10 2 25 de maio. A pesquisa também aponta os impactos da reabertura das escolas depois do isolamento social.

Covid-19 avança na periferia da RMR , revela pesquisa da Fundaj

Aglomeração de pessoas em Jaboatão dos Guararapes durante a pandemia do coronavírus. Pernambuco/ Foto: Reprodução/ TV Globo

Publicado em 3 de junho de 2020 - 12:03

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Nos últimos 15 dias, os números de casos e óbitos por Covid-19 da Região Metropolitana do Recife (RMR) cresceram em maior quantidade nos bairros de alta vulnerabilidade social. Baseado nos Informes Epidemiológicos das  secretarias de Saúde dos municípios, o mapeamento feito pela Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) mostra o avanço da pandemia nesses locais entre 10 e 25 de maio. Além disso, a pesquisa também oferece uma análise sobre os impactos econômicos e as consequências da reabertura de escolas depois do confinamento.

“O coronavírus tem características urbanas e territoriais com rápida velocidade de disseminação por meio da nossa rede de cidades. A doença se vale das nossas fragilidades, não apenas biológicas, mas também sociais. Nossas desigualdades intra urbanas e regionais potencializam sua dispersão e seus impactos”, afirmou o pesquisador e coordenador do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a Pesquisa Social (Cieg) da Fundaj, Neison Freire.

Dos 15 municípios que compõem a RMR, a pesquisa selecionou os 4 mais conurbados e que apresentam as maiores populações. Ou seja, o núcleo urbano central da aglomeração urbana do Recife. Esses quatro municípios reúnem 75,4% (3.072.281 habitantes) da população total da região metropolitana (4.074.014 habitantes). Suas respectivas populações, segundo a estimativa do IBGE para 2019, foram: Recife (1.645.727 habitantes), Olinda (392.482 habitantes), Jaboatão dos Guararapes (702.298 habitantes) e Paulista (331.774 habitantes).

Considerando os 94 bairros do Recife, Jordão, Ibura e Cohab (Zona Sul) e Água Fria, Vasco da Gama, Nova Descoberta e Dois Unidos (Zona Norte) foram aqueles que apresentaram as maiores variações de casos confirmados, nos últimos 15 dias, comparados aos demais da cidade. Pina, Imbiribeira, Várzea, Iputinga, Torrões, Macaxeira e Torre são outros bairros com valores que variam entre médias e altas vulnerabilidade e número de casos confirmados.

Os bairros que mais variaram em número de óbitos foram também os mais socialmente vulneráveis: na Zona Sul, Jordão, Ibura e Cohab, na Zona Leste, Barro, Curado e Estância, e na Zona Norte, Brejo da Guabiraba, Dois Unidos, Nova Descoberta, Vasco da Gama, Alto José Bonifácio e Água Fria.

A pesquisa avaliou a variação de casos confirmados e óbitos, mapeando a relação desses indicadores com o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS). Esse índice foi criado pelo Cieg da Fundaj. O mesmo foi calculado por setor censitário urbano, com base em 4 variáveis do Censo 2010 do IBGE: proporção de domicílios com renda até ½ salário mínimo per capita, proporção de domicílios sem abastecimento de água e coleta de lixo, bem como a inadequação de esgotamento sanitário dos domicílios.

Apesar do bairro de Boa Viagem apresentar a maior variação entre os 94 bairros do Recife (foi de 351, no dia 10 de maio, para 531 casos confirmados, no dia 25. Ou seja, 180 novos casos, 51% de aumento), o bairro tem baixo índice de vulnerabilidade social (0,03). Se compararmos com o bairro vizinho, do Ibura, por exemplo, a situação é bem diferente: no dia 10, apresentava 96 casos e no dia 25, passou para 182, um aumento de 90%, com um índice de vulnerabilidade social de 0,33. Ou seja, a variação de casos confirmados foi maior no bairro mais pobre e vulnerável. 

Utilizando como exemplo os mesmos bairros do Recife relatados anteriormente, podemos observar a nítida relação entre a pandemia e a vulnerabilidade social na cidade. Em Boa Viagem, os óbitos variaram 112% (de 24 óbitos no dia 10 de maio para 51 no dia 25), enquanto no Ibura variaram 256% (de 9 para 32 no mesmo período).

Em Olinda, o bairro mais vulnerável e com maior variação de casos confirmados foi Águas Cumpridas, seguido de Sapucaia, Peixinhos, Fragoso e Jardim Atlântico. Alto da Sé, Carmo, Amparo e São Benedito foram os bairros com baixa vulnerabilidade social e menor variação de casos confirmados registrados no período estudado. Quanto a variação de óbitos, novamente Águas Cumpridas e os bairros Alto da Bondade e Caixa d’Água foram aqueles com maior variação de óbitos e alta vulnerabilidade social. Situação oposta foram os bairros de Casa Caiada e Bairro Novo, com pouca variação de óbitos e menor vulnerabilidade social. Novamente, Olinda segue o padrão de Recife e expõe suas desigualdades sociais em meio a pandemia.

No município de Jaboatão dos Guararapes, o bairro onde houve maior variação de casos e com maior vulnerabilidade foi Guararapes, seguido pelos bairros de Cavaleiro, Zumbi do Pacheco e Prazeres. Já os bairros de Vista Alegre e Comportas apresentaram menor variação de casos confirmados e têm baixa vulnerabilidade social. Os bairros de Santana, Muribequinha, Bulhões, Vargem Fria e Manassi são bairros que, apesar de terem alta vulnerabilidade social, não apresentaram grandes variações positivas de casos confirmados no período pesquisado. Nesse município, os óbitos também cresceram mais nos bairros mais pobres: Santo Aleixo, Cavaleiro e Prazeres.

 Já no Paulista (Figura 8), o bairro com maior vulnerabilidade social e que apresentou maior variação de casos confirmados foi Jardim Paulista Baixo, seguido, em menor intensidade, pelos bairros de Paratibe, Janga e Pau Amarelo. No sentido oposto, os bairros de Jardim Paulista, Jaguaribe e Poti apresentaram menores variações e vulnerabilidade social. 

“As análises desses quatro maiores municípios da região metropolitana mostram que os bairros com menor renda e precariedade no abastecimento de água, coleta de lixo domiciliar e esgotamento sanitário são aqueles que têm apresentado maior variação percentual de casos confirmados e óbitos no período pesquisado”, frisou Neison.

Impactos na economia desses municípios

Os efeitos das medidas de distanciamento social, com o fechamento das atividades consideradas não essenciais estão sendo sentidos nos dados do emprego formal. Na pesquisa feita, destacam-se o que foi publicado na última semana de maio, referente a contratações e demissões no sistema do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). A Tabela produzida apresenta o saldo e o acumulado do ano para os municípios do núcleo da RMR, no mês de abril de 2020, quando as medidas estavam em funcionamento pleno. Também está disponível a estimativa do número de trabalhadores formais em dezembro de 2019, obtida pela Relação Anual de Informações Sociais (RAIS/2018) com ajustes pelo CAGED 2019.

Pode-se argumentar que parte da queda deve-se a efeitos sazonais, pois o início do ano é marcado pela queda da atividade econômica, após o período das festas. Para efeito de comparação, em 2019, nesses mesmos quatro meses, a perda de emprego para esses quatro municípios foi de 128 pessoas. Ou seja, o efeito sazonal é muitas vezes inferior ao movimento observado neste ano. A perda de emprego até março/2020 estava em 7.704, o que indica que as demissões iniciaram-se desde o início da plena adoção das medidas e intensificaram-se em abril.

Aulas e Covid-19

Os municípios analisados na pesquisa registram mais de 3 milhões de habitantes, o que corresponde a quase 75% da população da Região Metropolitana do Recife. Segundo dados mais recentes do Censo Escolar do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), nesses municípios estão localizadas 1.893 escolas que oferecem todos os cursos da educação básica, desde a educação infantil até o ensino médio. A manutenção da suspensão das aulas presenciais é uma medida muito importante para reduzir a propagação da Covid-19. Isso, levando em conta o impacto da circulação de pessoas, caso a frequência nas escolas retornasse da forma que ocorria antes da pandemia. 

Nessas escolas, 23.416 professores lecionavam e 625.270 crianças e jovens frequentavam presencialmente as atividades educacionais. Pode-se dizer então que esses professores e estudantes circulavam entre seus lares e as escolas em seu trajeto cotidiano para trabalhar ou estudar, além de outros espaços que pudessem ser acessados durante o percurso de modo eventual, como uma lanchonete ou uma papelaria.

Também é importante lembrar que a suspensão das aulas presenciais não toca somente nos alunos e professores diretamente envolvidos. Outros profissionais que trabalham nas escolas da educação básica também ficariam expostos ao risco de contágio. Ao voltarem a suas casas, todos que vivem com pessoas do grupo de risco aumentam a chance de ampliação do número de casos mais graves.

Da redação do Portal com informações da Fundaj

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