Artigo

Brasil 2020: nem socialismo, nem militarismo

Quem é favorável a um "AI-5" precisa reaprender a pensar objetivamente. Por mais complexidade que a democracia traga, temos que aprender a lidar com ela.

Há alguns dias tive uma enorme surpresa quando peguei o celular para ver uns grupos do Whatsapp. De repente me dei conta de que estava inscrita num grupo que levava “AI-5” no nome. Logo eu, que escrevo para um veículo da imprensa?

Após sair da comunidade em questão, constatei que alguém havia alterado aquela identificação. Antes, era um grupo normal de política de direita, cujo nome tinha certa normalidade.

Nem todas as pessoas simpatizantes da direita tem problemas com a democracia representativa brasileira. Entre nós, no entanto, há alguns que apelam para extremismos. Mas, pasmem, estes não são maioria, como alguns meios de comunicação querem que se pense.

Nada tem maior dignidade do que dar ao outro o direito de pensar diferente. Particularmente, gosto de conversar com gente diferente de mim quando o respeito dá o tom do diálogo.

Não sou a favor da supressão do governo democrático, seja pelo socialismo ou pela imposição do militarismo. Claro, qualquer estudante realmente interessado verá alguns frutos positivos do governo militar no Brasil. Esse tipo de governo só fez sentido para aquele momento histórico e econômico.

Em meados de 2020 tenho me perguntado: por onde andam as vozes esclarecidas? E nossos intelectuais? E as pessoas de notório saber político? Quanto tempo mais vão esperar para mostrar às massas os melhores caminhos? Por onde andam os arautos do equilíbrio?

Não chamo de equilíbrados aqueles que escolheram andar encima do muro. Esses, são residência confortável para irresponsabilidade republicana.

Como nação, também temos que parar de achar que a mudança sempre virá dos outros. Não há políticos ou partidos messiânicos. Desprezamos o poder do voto, mas é justamente aí que nossa primeira responsabilidade chama para ser exercida.

Por que não usamos os meios que temos para conhecer nossos políticos? Não temos acesso a informações, por exemplo, criminais e fiscais? Por que continuamos seduzidos por abraços e discursos emotivos, não poucas vezes, tão recheados de mentira?

Certa vez, num evento universitário, uma mulher famosa se apresentou com a aparência propositalmente descuidada. Ela trouxe a filha. Enquanto a mulher falava de suas pretensões de “mudar o Brasil”, a filha brincava sentada no chão, manuseando massinha de modelar.

Custei a acreditar como aquela parte da “elite acadêmica” juvenil não cessava de louvar a mulher, vendo nela uma “pessoa humilde” e digna de receber os votos de todos. Todavia, bastava uma simples busca pela internet para ver quem era aquela pessoa que, por sinal, nunca chegou nem perto da pobreza.

Somos uma nação de idiotas? Claro que não. Então, por que muitos de nós agimos como tal? Por que abdicamos até do mais frágil verniz de inteligência que nos adorna para desconsiderar a malícia humana na política? E, então, por que usamos o mesmo raciocínio para atribuir deidade a um governo militar na conjuntura que vivemos em 2020?

Quem é favorável a coisas como um “AI-5” precisa reaprender a pensar objetivamente. Por mais complexidade que a democracia traga em seus desafios, temos que aprender a lidar com ela. É a liberdade que conduz a qualquer tipo de evolução, seja ela individual ou nacional

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