Retratação

Em nota, Beth de Oxum mantém crítica aos pastores Fundamentalistas

A religiosa afirmou que de forma "leviana e desonesta" as pessoas a acusam de intolerância religiosa

Beth de Oxum, Em nota, Beth de Oxum mantém crítica aos pastores Fundamentalistas
Foto: Reprodução

A mãe de santo Beth de Oxum publicou uma carta aberta no perfil do Instagram da página Coco de Umbigada, no qual ela faz parte, repudiando as críticas que vem sofrendo após mandar pastores “se f…”.

Na carta aberta, Beth diz que é “admiradora do Pastor Henrique Vieira, um líder religioso que respeito e estimo como um sacerdote; do pastor Ariovaldo Ramos, alguém que não prega o racismo religioso e com quem cultivo amizade serena”.

A polêmica aconteceu no Festival Lula Livre no Recife, no domingo (18), onde a Mãe de Santo Beth de Oxum, mandou pastores “se fod**” e após xingar Bolsonaro, destacou que “está na hora do pau comer”.

A fala de Beth foi tema de discussão na Reunião Plenária desta terça-feira (19), na Assembleia Legislativa de Pernambuco. A deputada Estadual Clarissa Tércio (PSC), ingressou na tarde dessa quarta-feira (20), com Ação Criminal, no Ministério Público Estadual (MPPE).

O pastor Jairinho também apresentou uma queixa-crime ao Ministério Público Federal de Pernambuco contra a mãe de santo.

Veja a carta aberta completa:

CARTA ABERTA DE BETH DE OXUM SOBRE AS RECENTES ACUSAÇÕES DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

No último domingo, no festival Lula Livre Recife, usei do direito da expressão artística para um discurso político. Um discurso crítico à postura daqueles pastores evangélicos fundamentalistas que controlam a mídia e a política do país. Referi-me somente a essas pessoas.
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Por causa dessa fala, acusam-me de forma leviana e desonesta de intolerância religiosa. Pastores que se declaram abertamente fundamentalistas, pasmem, estão inquietos e raivosos, dizendo que blasfemei contra todos os adeptos do evangelho. Como poderia eu?
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Sou uma admiradora do Pastor Henrique Vieira, um líder religioso que respeito e estimo como um sacerdote; do pastor Ariovaldo Ramos, alguém que não prega o racismo religioso e com quem cultivo amizade serena; e também do recém conhecido Pastor Paulo César Pereira, admirável presidente da Aliança de Batistas do Brasil, com quem participei de um encontro inter-religioso na Sinagoga do Recife recentemente, em uma pré-conferência sobre o Clima (COP 25), onde discutimos a importância da união dos líderes religiosos para defender nosso ecossistema para as gerações futuras.
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Em momento nenhum disse, digo ou direi que nas igrejas evangélicas só existem pessoas brancas; faço críticas à elite branca, pois só quem vivencia o racismo sabe o privilégio que esse grupo possui. Repudio essa elite classista, branca, de punho machista, que nos exclui da posse de ser quem somos, falar o que queremos, lutar pelo o que é nosso e nunca ter medo de nada. Não tenho vontade de mídias e holofotes e muito menos estou procurando por visibilidade na luta dos outros para ampliar um eleitorado. Mas, diante da manipulação de minhas intenções, não tenho como me calar.

Nós, negros, somos um povo que sofre diariamente com o ódio religioso incitado por radicais fundamentalistas. Essa intolerância com as religiões de matriz africana está na televisão recorrentemente. Vemos os nomes de nossos Orixás sagrados e demais entidades sendo demonizados e usados como chacota há mais de dois séculos. Crianças são apedrejadas em trajes de axé e terreiros são expulsos de comunidades cariocas em uma aliança nefasta entre pastores fundamentalistas e o tráfico de entorpecentes. .
Em pleno século XXI, vereadores vão à praia no Recife para satanizar e exorcizar Iemanjá em seu dia. E o Estado se cala. Por muito tempo, o Estado legitimou a satanização dos Orixás, a perseguição religiosa, o racismo. O fundamentalismo mobilizado por algumas lideranças evangélicas é um projeto de dominação que tem servido como base ao modelo fascista de dominação imposto ao nosso país. Precisa ser combatido em uma perspectiva que garanta a pluralidde. Um Estado laico não pode ter representantes que gozam do seu poder político para perseguir a fé e a cultura de um povo.
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Por todas essas razões é inaceitável a acusação de intolerância que me imputam. Quem se sentiu ofendido é quem acha que pode ter legitimidade de ser racista e pregar uma inquisição, literalmente uma “caça às bruxas”. É quem nos defende nos chamando de mulatos. A palavra mulato advém da palavra mula, termo racista e retrógrado para chamar o povo negro. Não se refira a nós como mulatos, nós não somos mulas. Somos homens e mulheres negros, descendentes de reis e rainhas e resistentes a esse racismo didático disfarçado de compreensão. .
Mesmo com a elite branca exterminando nossos filhos e filhas, as mulheres resistem na vida, e são maioria. Quando se cala uma de nós, renascem mais 100 melhores. Melhores em ensinar às nossas crianças negras e afrodescendentes o respeito pelas diferenças religiosas, o empreendedorismo negro, o estudo sobre a nossa ancestralidade, a cultura de nossa dança; pois o povo negro resiste, conquista e comemora (e luta) dançando!

Ao invés de discutir teologia, líderes políticos deveriam apresentar projetos de lei para a segurança pública no estado de Pernambuco, para a região metropolitana do Recife e interior: o medo assola a população pernambucana, e colabora com a perpetuação de poucos no poder. Se preocupem mais com os projetos para melhoria do nosso estado, do que com falsas e inúteis intrigas religiosas ou acusações descabidas.
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Beth de Oxum.
Mãe, mulher negra, nordestina, sacerdotisa do Candomblé há mais de 30 anos, juremeira, brincante carnavalesca, mestra de cultura popular de Coco de Roda, Afoxé e Maracatu no Estado. Militante do movimento negro, dos povos de terreiro e dos direitos humanos e das mulheres. Cavaleira do Mérito da Ordem Cultural do Brasil.”

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. CARTA ABERTA DE BETH DE OXUM SOBRE AS RECENTES ACUSAÇÕES DE INTOLERÂNCIA RELIGIOSA . No último domingo, no festival Lula Livre Recife, usei do direito da expressão artística para um discurso político. Um discurso crítico à postura daqueles pastores evangélicos fundamentalistas que controlam a mídia e a política do país. Referi-me somente a essas pessoas. . Por causa dessa fala, acusam-me de forma leviana e desonesta de intolerância religiosa. Pastores que se declaram abertamente fundamentalistas, pasmem, estão inquietos e raivosos, dizendo que blasfemei contra todos os adeptos do evangelho. Como poderia eu? . Sou uma admiradora do Pastor Henrique Vieira, um líder religioso que respeito e estimo como um sacerdote; do pastor Ariovaldo Ramos, alguém que não prega o racismo religioso e com quem cultivo amizade serena; e também do recém conhecido Pastor Paulo César Pereira, admirável presidente da Aliança de Batistas do Brasil, com quem participei de um encontro inter-religioso na Sinagoga do Recife recentemente, em uma pré-conferência sobre o Clima (COP 25), onde discutimos a importância da união dos líderes religiosos para defender nosso ecossistema para as gerações futuras. . Em momento nenhum disse, digo ou direi que nas igrejas evangélicas só existem pessoas brancas; faço críticas à elite branca, pois só quem vivencia o racismo sabe o privilégio que esse grupo possui. Repudio essa elite classista, branca, de punho machista, que nos exclui da posse de ser quem somos, falar o que queremos, lutar pelo o que é nosso e nunca ter medo de nada. Não tenho vontade de mídias e holofotes e muito menos estou procurando por visibilidade na luta dos outros para ampliar um eleitorado. Mas, diante da manipulação de minhas intenções, não tenho como me calar. . (Continua nos comentários)

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